Eu (que no momento não sou eu mesmo, mas Abelardo, filho de Dirce e Guardião da Dragônia) grito o nome de Kron, deus da guerra, jogo minha espada por terra e me prostro. As luzes se apagam, a música morre, e é justamente essa a deixa para que todos à minha frente entendam que a fantasia acabou, eu sou de novo um ator suado e exausto, eles são de novo uma platéia e agora devem todos me aplaudir, me amar e gritar o meu nome.
O silêncio que inicia no fim da música continua. E continua. E as pessoas continuam lá, e eu continuo de cabeça baixa, sem saber o que fazer. E se não aplaudirem? O aperto que tava no peito começa a subir pela garganta, tentando me sufocar. Pense rápido! Que atitude eu devo tomar? Levantar, juntar a espada e fugir para os bastidores, com o resto de dignidade que ainda tenho? Esperar que vão todos embora e só aí sair do palco? Simular um desmaio?
Cadê os aplausos? Cadê os meus aplausos? Aqui estou eu, suando frio e tremendo, remoído pelas dúvidas. Que foi que eu fiz de errado? Será que eu fui tão mal assim? Será que eu deveria ter falado mais alto? Será que faltou energia, ou eu exagerei na dose? Vou entrar para a história como um grande canastrão?
Maldita hora em que eu entrei naquele curso de atores… “Vai, meu filho, vai ser bom pra ti”, tinha dito mil vezes a minha mãe… Claro, não era ela que ficaria exposta desse jeito, não era ela que passaria por essa humilhação. Eu deveria ter respondido aquela vez que não entraria no curso, que insegurança não é doença, que eu poderia viver a minha vida muito bem sem esse curso, e que subir num palco não iria mudar a minha vida. Eu nem me acho tão inseguro assim.
Que droga, se não vão me aplaudir, por que continuam aí? Ai, meu Deus, com tantas platéias no mundo, fui me apresentar logo para um bando de sádicos! Será que querem piorar o meu fracasso? E por que a minha mãe, já que insistiu tanto pra eu fazer esse curso, não me aplaude? Eu sou o filho dela! Será que nem ela gostou? Como é que eu vou olhar pra ela depois dessa? Ou se gostou, por que ela não faz a frente e começa a bater palmas? Se alguém começar, os outros acompanham, mesmo que não tenham gostado. Droga. Tremendo desse jeito, vão pensar que tô nervoso… Tá, eu tô nervoso, mas tenho motivo… Por que que eu fui aceitar fazer justo um monólogo? Se ainda tivesse mais gente no palco, minha humilhação seria menor. É bom dividir a desgraça com os outros, eu acho.
Meses de curso pra acabar desse jeito. No começo tinha sido tão difícil, ficar exposto, os olhares de todos voltados pra mim, ter que fazer coisas para serem vistas, ter que falar em público, tentar interpretar bem… Eu fui me soltando, os colegas eram legais, não tinha platéia nos ensaios… Sem platéia é fácil se soltar. Eu deveria saber disso. O professor sempre dizia que eu tinha muito jeito pra coisa, que era só aprender a relaxar, que ele tinha um baita texto só pra mim, que se eu trabalhasse duro seria um sucesso… E eu acreditei nele! Filho da mãe! Nunca mais vou acreditar em elogio de professor, nunca mais, nunca mais, nunca mais! Se eu tivesse me dado conta disso antes, não estaria aqui, abandonado enquanto riem de mim… Não tenho coragem de levantar a cabeça, mas com certeza estão rindo de mim…
Começo a tremer mais ainda, mas decido acabar o suplício com alguma dignidade. Levantar, pegar minha espada, ir embora e nunca mais falar com a minha mãe. Viver a vida normalmente, sem querer ser nada especial, fazendo o meu feijão com arroz sem medo de cair. Isso não é ser inseguro, é só saber que quem não nasceu pra grandes coisas tem mais é que ficar nas pequenas. Sou mesmo um merda.
Levanto. E, nesse momento, as luzes se acendem. O desgraçado do iluminador jogou uma luz bem na minha cara! Levo a mão ao rosto, pra evitar que além de fracassado eu fique cego. Quando o retardado se toca e apaga aquele holofote, vocês não vão acreditar no que eu vejo! A platéia toda também está de pé, e eles estão me aplaudindo! Me aplaudindo, sim, batendo palmas, sorrindo, e assobiando, e acenando e gritando, tudo isso pra mim! Minha mãe, na primeira fila, nem cabe em si, de tanto orgulho! Oi, mãe! Que sorriso bonito você tem! Eu também estou orgulhoso! Sim, eu sei, eu sou mesmo demais!
Eu fico olhando pra eles, e eles continuam me aplaudindo, e eu não sei se rio, se fico sério, se aceno se me curvo. Que fazer numa hora dessas? Meu coração deve estar saindo pela boca. Certamente estou um pimentão, mas meu Deus, como é bom o som dos aplausos! Só há uma coisa a fazer.
Levanto a espada e grito:
‑ Kron!!!!!