A Imprensa Livre de Eduardo Nunes

Um lugar onde o autor pode escrever o que pensa sobre a Vida, a Sociedade e a campanha do Madureira - mesmo que não haja ninguém para ler.

29

de
dezembro

MUDANÇA DE ENDEREÇO

Este colunista, vítima de abdução por alienígenas do Sistema Estelar de Betelgeuse (eram do quarto planeta à esquerda de quem vai), recentemente foi libertado e comunica aos seus seis leitores (sim, o número aumentou!) que voltará a escrever.

Mas não aqui.

Por motivos impublicáveis num site aberto a menores de idade, o Terra deixará de abrigar esta coluna.

A partir de agora, ela estará disponível em:

http://minhaliberdadedeimprensa.blogspot.com

 

Obrigado.

7

de
novembro

LULINHA DA PÁSCOA, QUE TRAZES PRA MIM…

A história de um homem é a história de suas desilusões. Bem, pelo menos a minha é.

Lembro-me que, quando criança, eu acreditava em Coelhinho da Páscoa. Quem já foi criança sabe do que estou falando (refiro-me àquelas crianças que não tiveram as ilusões prematuramente roubadas por banqueiros e/ou políticos corruptos). Pois bem, quem já foi criança sabe que poucos deleites dessa vida se equiparam à sensação de acordar bem cedo no Domingo da Páscoa e percorrer a casa ansioso, com a respiração suspensa, até encontrar aquele ninho maravilhoso, com um ovo gigantesco e grávido de bombons… Depois, checar as armadilhas estrategicamente espalhadas pelos cantos, à procura de vestígios da passagem do generoso roedor pascal, e constatar que elas estão intactas! O Coelhinho era mesmo muito esperto.

Anos mais tarde, tínhamos, veja só, orgulho em dizer que não acreditávamos mais nisso. E era com certo sadismo que dizíamos às crianças menores:

- Deixa de ser bobo, piá. O Coelhinho não existe. São os teus pais que te esperam dormir e escondem o ninho!

Elas torciam o nariz para o nosso ceticismo e continuavam espalhando armadilhas pela casa… até que fossem também elas capturadas pela armadilha da realidade, tornando-se mais realistas e menos felizes.

Destino semelhante tiveram outras das minhas melhores crenças infantis, como o Papai Noel, os super-poderes do meu pai, os truques do McGyver e o disco voador da Xuxa.

No decorrer dos anos, vamos sendo embrutecidos pelo desmonte de outras ilusões, uma após a outra. Descobrimos que não seremos jogadores de futebol, nem astros do rock, nem agentes do Serviço Secreto britânico. Aprendemos que o Van Damme usa trampolim e não bate de verdade, que manga com leite não mata e que comer no escuro não atrai o diabo (mas que deixa a toalha imunda, isso deixa).

Algumas dessas “caídas na real” até que são positivas. Qual foi o adolescente que nunca teve a ilusão de que nunca conseguiria conquistar nenhuma garota desse mundo, e que passaria a vida inteira sendo um patinho feio mal-amado? Nessas horas, é muito bem-vinda a “desilusão” que temos ao saber que alguém gosta da gente.

Em todo caso, no fim das contas acabamos nos tornando desiludidos com tudo, céticos profissionais. Encaramos a vida com olhos incrédulos, sabendo que não existe sonho do qual não se acorde e nem magia que resista a um exame na cartola do mágico. Alguns de nós até tentam se justificar:

- Tá olhando o quê? Pelo menos eu tenho os pés no chão.

Minha última grande desilusão foi com o sonho do presidente operário. Dois mil e dois foi para mim um ano mágico, da volta da esperança e do “agora vai”. Depois de anos de espera, vi um homem do povo chegar ao poder. Vi o triunfo de um partido que tinha projetos ao invés de interesses. Um ciclo de quinhentos anos de exploração do homem pelo homem chegava ao fim, e uma nova era começaria na política brasileira. Tropicalizando James Monroe, seria “O Brasil para os brasileiros,” acabando com a miséria, moralizando o jogo político, usando a economia para desenvolver o Brasil e melhorar a qualidade de vida do povo, promovendo uma verdadeira distribuição de renda e cultura, “como nunca se viu na história desse país” *.

A gente nunca aprende, não é mesmo? O sonho de um Brasil decente foi só mais uma ilusão que perdi, destruída pelo fisiologismo, pela corrupção e pela total falta de rumo e consistência. Milhões de brasileiros descobriram que, no frigir dos ovos, a direita e a esquerda são iguais, a diferença é que os homens de direita são mais organizados e tomam banho.

Agora, Lula nos pede para acreditar. Diz que o rumo vai mudar, que as reformas necessárias serão feitas, que o Brasil vai crescer 5% ao ano.

É triste, mas, a essa altura, isso é o mesmo que pedir àquela criança (que recém flagrou o pai escondendo o ninho de Páscoa) que ela volte a espalhar armadilhas pela casa.

 

*O Marcio Dolzan e outros leitores sagazes perceberão que esta é uma expressão muito usada por uma certa pessoa.

20

de
outubro

EU : O GUARDIÃO DA DRAGÔNIA

Eu (que no momento não sou eu mesmo, mas Abelardo, filho de Dirce e Guardião da Dragônia) grito o nome de Kron, deus da guerra, jogo minha espada por terra e me prostro. As luzes se apagam, a música morre, e é justamente essa a deixa para que todos à minha frente entendam que a fantasia acabou, eu sou de novo um ator suado e exausto, eles são de novo uma platéia e agora devem todos me aplaudir, me amar e gritar o meu nome.

O silêncio que inicia no fim da música continua. E continua. E as pessoas continuam lá, e eu continuo de cabeça baixa, sem saber o que fazer. E se não aplaudirem? O aperto que tava no peito começa a subir pela garganta, tentando me sufocar. Pense rápido! Que atitude eu devo tomar? Levantar, juntar a espada e fugir para os bastidores, com o resto de dignidade que ainda tenho? Esperar que vão todos embora e só aí sair do palco? Simular um desmaio?

Cadê os aplausos? Cadê os meus aplausos? Aqui estou eu, suando frio e tremendo, remoído pelas dúvidas. Que foi que eu fiz de errado? Será que eu fui tão mal assim? Será que eu deveria ter falado mais alto? Será que faltou energia, ou eu exagerei na dose? Vou entrar para a história como um grande canastrão?

Maldita hora em que eu entrei naquele curso de atores… “Vai, meu filho, vai ser bom pra ti”, tinha dito mil vezes a minha mãe… Claro, não era ela que ficaria exposta desse jeito, não era ela que passaria por essa humilhação. Eu deveria ter respondido aquela vez que não entraria no curso, que insegurança não é doença, que eu poderia viver a minha vida muito bem sem esse curso, e que subir num palco não iria mudar a minha vida. Eu nem me acho tão inseguro assim.

Que droga, se não vão me aplaudir, por que continuam aí? Ai, meu Deus, com tantas platéias no mundo, fui me apresentar logo para um bando de sádicos! Será que querem piorar o meu fracasso? E por que a minha mãe, já que insistiu tanto pra eu fazer esse curso, não me aplaude? Eu sou o filho dela! Será que nem ela gostou? Como é que eu vou olhar pra ela depois dessa? Ou se gostou, por que ela não faz a frente e começa a bater palmas? Se alguém começar, os outros acompanham, mesmo que não tenham gostado. Droga. Tremendo desse jeito, vão pensar que tô nervoso… Tá, eu tô nervoso, mas tenho motivo… Por que que eu fui aceitar fazer justo um monólogo? Se ainda tivesse mais gente no palco, minha humilhação seria menor. É bom dividir a desgraça com os outros, eu acho.

Meses de curso pra acabar desse jeito. No começo tinha sido tão difícil, ficar exposto, os olhares de todos voltados pra mim, ter que fazer coisas para serem vistas, ter que falar em público, tentar interpretar bem… Eu fui me soltando, os colegas eram legais, não tinha platéia nos ensaios… Sem platéia é fácil se soltar. Eu deveria saber disso. O professor sempre dizia que eu tinha muito jeito pra coisa, que era só aprender a relaxar, que ele tinha um baita texto só pra mim, que se eu trabalhasse duro seria um sucesso… E eu acreditei nele! Filho da mãe! Nunca mais vou acreditar em elogio de professor, nunca mais, nunca mais, nunca mais! Se eu tivesse me dado conta disso antes, não estaria aqui, abandonado enquanto riem de mim… Não tenho coragem de levantar a cabeça, mas com certeza estão rindo de mim…

Começo a tremer mais ainda, mas decido acabar o suplício com alguma dignidade. Levantar, pegar minha espada, ir embora e nunca mais falar com a minha mãe. Viver a vida normalmente, sem querer ser nada especial, fazendo o meu feijão com arroz sem medo de cair. Isso não é ser inseguro, é só saber que quem não nasceu pra grandes coisas tem mais é que ficar nas pequenas. Sou mesmo um merda.

Levanto. E, nesse momento, as luzes se acendem. O desgraçado do iluminador jogou uma luz bem na minha cara! Levo a mão ao rosto, pra evitar que além de fracassado eu fique cego. Quando o retardado se toca e apaga aquele holofote, vocês não vão acreditar no que eu vejo! A platéia toda também está de pé, e eles estão me aplaudindo! Me aplaudindo, sim, batendo palmas, sorrindo, e assobiando, e acenando e gritando, tudo isso pra mim! Minha mãe, na primeira fila, nem cabe em si, de tanto orgulho! Oi, mãe! Que sorriso bonito você tem! Eu também estou orgulhoso! Sim, eu sei, eu sou mesmo demais!

Eu fico olhando pra eles, e eles continuam me aplaudindo, e eu não sei se rio, se fico sério, se aceno se me curvo. Que fazer numa hora dessas? Meu coração deve estar saindo pela boca. Certamente estou um pimentão, mas meu Deus, como é bom o som dos aplausos! Só há uma coisa a fazer.

Levanto a espada e grito:

‑ Kron!!!!!

 

 

 

 

10

de
outubro

RAIO-X DAS ELEIÇÕES DE UM PAÍS VIZINHO

Ao mesmo tempo em que Pindorama renovava o seu Congresso (“agora vai!”, como se tem dito nas últimas décadas) com a entrada de jovens idealistas do quilate de Collor, Maluf, Sarney, Genoíno e João Paulo Cunha, realizaram-se eleições gerais também em Pindaíba, país vizinho.

Diferente do povo de Pindorama, que já atingiu um alto nível de conscientização para a cidadania, o eleitorado pindaibano ainda se deixa seduzir por práticas escusas como o coronelismo, o compadrismo, o fisiologismo, o filho-da-putismo e o voto útil.

Este colunista, como não deixaram de notar os seus cinco devotados leitores, esteve ausente do ciberespaço por várias semanas, tempo este que aproveitou, entre outras coisas, para acompanhar o pleito de Pindaíba na condição de observador das Nações Unidas.

Eis algumas impressões acerca do processo eleitoral pindaibano:

• Grande parte dos deputados e senadores que formarão o Congresso de Pindaíba elegeu-se pela segunda, terceira ou quarta vez consecutiva. Muitos deles são filhos e/ou netos de ex-congressistas, e alguns serão inclusive colegas de Parlamento dos seus próprios filhos e/ou netos. Talvez seja por isso que alguns muros da capital amanheceram pichados com a enigmática frase “Abaixo a Monarquia!”

• Meses antes das eleições, escândalos de corrupção envolvendo tanto deputados governistas quanto oposicionistas jogaram na lama o pouco de moral que ainda restava em Pindaíba. O povo pindaibano, entretanto, parece não se importar muito com os banhos de lama de seus congressistas, pois boa parte dos envolvidos nos escândalos acabaram consagrados nas urnas.

• No segundo turno do pleito presidencial, os pindaibanos terão de optar entre duas lavadeiras que, por não terem grandes diferenças programáticas, usam a campanha e os debates para trocar acusações e impropérios. O Sindicato das Lavadeiras de Pindaíba já comunicou a expulsão das candidatas em questão, alegando que as suas campanhas desmoralizam a categoria.

• Por razões ignoradas, a legislação eleitoral pindaibana permite que ilustres desconhecidos sejam eleitos com meia dúzia de votos, graças às votações hercúleas de correligionários mais famosos. O caso mais emblemático é o de Zé da Caminhonete, do PQP, eleito deputado federal com apenas um voto (o que o fez abrir processo de divórcio na manhã seguinte à apuração), graças aos dois milhões de votos de Ted Ruivão, um veterano astro da luta livre que decidiu entrar para a política prometendo bater em quem desrespeitar a Constituição no Plenário.

Por essas e por outras é que, ao voltar para Pindorama num Legacy da Pindair Táxi Aéreo, ouvi de duas compatriotas sentadas à minha frente o seguinte cochicho: “Graças a Deus o nosso país não é assim”.

26

de
agosto

SEPPUKU - NO DONUT FOR YOU

Queridos leitores, devo informá-los que o meu computador, quiçá o último PC a respeitar o código de honra dos samurais, suicidou-se.

Até que  esses problemas sejam sanados, esta coluna estará temporariamente fora do ar.

Até…

19

de
agosto

INCIDENTES DIPLOMÁTICOS

A primeira visita à Terra dos Nobres Embaixadores do Alto Conselho Galáctico não foi exatamente como os Nobres Embaixadores esperavam. Não que eles esperassem muita coisa, mas ser abatidos com dardos tranqüilizantes e levados para o zoológico definitivamente não estava nos seus planos – pelo menos, não nos mais imediatos. Tudo bem, eles se pareciam muito com uma manada de antílopes, mas os guardas que os capturaram poderiam ter ao menos perguntado antes de começar a atirar.

O leitor deve estar se perguntando que fim levou o disco voador que trouxe até a Terra os Nobres Embaixadores. A nave oficial do Alto Conselho Galáctico não despertou suspeitas, até porque era idêntica a uma lanchonete do McDonald’s. Os únicos transtornos verificados na área de aterrisagem do OVNI foram as reclamações dos fregueses quanto ao sabor do Big Mac. Uma cliente mais exaltada chegou inclusive a perguntar ao gerente, em tom de escárnio, se o McDonalds usa carne de vacas alienígenas nos seus hambúrgueres…

A segunda visita à Terra dos Nobres Embaixadores do Alto Conselho Galáctico foi diferente, mas não muito. Os diplomatas estelares desta vez tomaram certos cuidados com a própria camuflagem, para não despertarem suspeitas entre os terráqueos. Quando deixaram a nave, nenhum transeunte os diferenciaria de um típico grupo de músicos de rua peruanos. A única coisa que talvez denunciasse o seu disfarce era que eles não desafinavam ao cantar os agudos.

Pode não parecer, mas eles tinham uma missão. E uma missão deveras importante. Os Nobres Embaixadores vieram à Terra para avaliar a possibilidade de o nosso planeta integrar o Alto Conselho Galáctico. Estavam acompanhando a nossa civilização há um certo tempo, desde que as primeiras transmissões terráqueas de TV chegaram à sede do Alto Conselho. Eles nunca entenderam nada do que era transmitido durante todas essas décadas, a não ser o fato de estarmos sempre praticando um curioso esporte que envolvia explosões e grandes quantidades de um estranho líquido vermelho. Em todo caso, consideraram que uma civilização capaz de dedicar tanto tempo a uma prática esportiva era digna de consideração.

Como é fato conhecido em toda a galáxia, todas as civilizações que passam a pertencer ao Alto Conselho Galáctico dão monumentais saltos tecnológicos e filosóficos. Afinal, não pode haver desigualdades gritantes entre os membros de uma organização interplanetária. Para nós, seria o fim da fome, da poluição, das doenças e dos shows de bizarrices na TV. Obteríamos tecnologia para o vôo interestelar, e seriam abertas movimentadas vias de transporte e comunicação entre a Terra e o Infinito.

Seria, talvez, o acontecimento mais importante para a humanidade desde a invenção da batata frita.

Mas, infelizmente, nada disso vai acontecer. Os Nobres Embaixadores do Alto Conselho Galáctico tiveram o azar de aportar numa cidade brasileira, onde até ganharam algumas esmolas mas, durante a noite, foram mortos a pauladas e pontapés por um grupo de jovens de classe alta que, cansados de espancar mendigos, decidiram brincar com os primeiros peruanos que encontrassem pela rua.

Diante do malogro da sua segunda missão diplomática, o Alto Conselho Galáctico decidiu abandonar a Terra à própria sorte e espalhar sentinelas pelo Sistema Solar para que, ao primeiro sinal de ameaça real dos terráqueos à ordem cósmica, o Conselho de Segurança Galáctico emita uma resolução determinando que a Terra e seus habitantes sejam varridos dos mapas estelares.

16

de
agosto

LÍBANO, ESTADO, ANARQUIA E O LOBO (GUARÁ) DO HOMEM

Parece que o Brasil pretende mesmo enviar uma força de paz ao Líbano (apesar dos protestos deste colunista), o que mostra que, ou o presidente Lula e seu staff não enxergam um palmo diante do nariz, ou eles têm muito senso de humor.

Anteontem, duas linhas de ônibus da Cia. Carris, de Porto Alegre, estiveram paralisadas por uma hora. Foi um protesto dos seus motoristas e cobradores contra os sucessivos assaltos que os coletivos vêm sofrendo. Domingo à tarde, um menino de 13 anos chamado Émerson foi assaltado num movimentado terminal de ônibus no centro da mesma cidade, por pivetes que, armados de facas, levaram o seu celular. Pela TV, acompanhamos o longo drama da violência em SP, onde o PCC converte-se paulatinamente num grupo terrorista.

O Estado brasileiro inexiste. Vivemos em plena anarquia, no sentido pejorativo do termo. A verdadeira anarquia deveria ser uma sociedade de pessoas tão conscientes, que não precisassem ser governadas. A anarquia brasileira consiste numa pesada e onerosa burocracia estatal, que funciona como uma engrenagem inútil e autolegitimadora, enquanto o povo está abandonado à própria sorte. Ou talvez seja mais apropriado dizer “ao próprio azar”.

Já que não somos pessoas perfeitas ou de natureza angelical (se bem que até mesmo o Céu teve a sua guerra civil), o Estado é uma instância necessária para mediar os conflitos e impedir que nos matemos uns aos outros por um pedaço de pão ou uma vaga no estacionamento. Por mais poéticas que sejam as teorias políticas dos filósofos franceses pós-modernos, a verdade é que a única coisa capaz de assegurar a harmonia social é um Estado que puna quem prejudicar essa harmonia. Como já dizia Thomas Hobbes há alguns séculos, o indivíduo só vai andar na linha se tiver certeza de que sair da linha ser-lhe-á muito, muito desvantajoso.

Então, ao invés de se responsabilizar o Estado brasileiro pela balbúrdia generalizada que vivemos, deve-se antes culpar a falta de um Estado autêntico no Brasil. Antes de chegarmos a esse patamar, qualquer idéia de se mandar uma “força de paz” para garantir a ordem alhures soa como uma piada. De péssimo gosto.

14

de
agosto

O PREÇO DA LIBERDADE

(À GUISA DE MEA CULPA)

Quem se queixa do determinismo e da opressão dos condicionamentos está reclamando de barriga cheia, e não sabe que difícil mesmo é ser livre.

É tão mais cômodo declarar-se escravo dos instintos e das circunstâncias! Quem se assume condicionado (seja pela Biologia, pela religião ou pelo FMI) não tem nenhuma obrigação de querer ser mais e nem pode ser condenado por ser menos: todos os seus pecados estão perdoados de antemão. Quando não se é livre, todos os cigarros são permitidos, todos os atrasos de cinqüenta minutos são tolerados, todas as cantadas vulgares para aquela mulher de vestido decotado são relevadas. Afinal, foi ela que saiu pela rua exibindo aqueles seios palpitantes.

A coisa complica de verdade quando se decide dizer não aos condicionamentos e ser responsável pelas próprias atitudes. Quem decidir sair para alto-mar em busca do seu próprio norte deve estar consciente de que não vai ter a quem culpar quando esbarrar num recife, e que será preciso remar nos momentos de calmaria. Talvez por isso muitos sejam os que preferem ficar para sempre ancorados no porto, culpando as tarifas alfandegárias pelo marasmo de suas vidas.

Num artigo anterior, eu citava a célebre frase de Sartre: “O homem é projeto”. Para o filósofo francês, o homem não é escravo da própria natureza, como os outros animais, mas sim capaz de decidir livremente qual a natureza que mais lhe convém e de levar a sua vida na direção que quiser. Ele esqueceu de incluir na frase o quão difícil é construir-se a si mesmo de acordo com este projeto. Pois os instintos estão aí, apesar da nossa capacidade de driblá-los. Viver em plenitude significa estar constantemente lutando contra as próprias limitações, contra a própria preguiça, contra o próprio comodismo, contra o próprio egoísmo, contra o próprio desânimo perante as dificuldades. A construção do próprio eu, o eu-livre, passa necessariamente por um processo de autodisciplina que pode levar anos para ser alcançado, ou a vida inteira. Bem, ninguém disse que seria fácil.

Mas por que mesmo estou escrevendo essas coisas, leitor? Ah. Porque nesta semana fui traído da pior forma possível: traí-me a mim mesmo, com o perdão pelo pleonasmo mais-que-vicioso. Estou entrando numa nova fase, uma rotina frenética com muitas e muitas atividades tão estimulantes quanto extenuantes, e sucumbi perante a preguiça de escrever a coluna da minha própria página, num desrespeito aos meus cinco leitores e aos meus próprios propósitos.

Prometo me policiar mais, doravante. Se preciso for, leitores, puxem-me a orelha.

9

de
agosto

O TEOREMA DE SARNEY

(OU: CONTRIBUIÇÕES DO CONGRESSO BRASILEIRO ÀS PESQUISAS SOBRE A FÍSICA DO CAOS)

Sinceramente, nunca entendi o porquê de um parlamento bicameral, ainda mais no Brasil. Se a idéia original de tal sistema era aumentar a representatividade do governo e aprofundar o debate na elaboração das leis, por aqui ele só tem servido para truncar o processo democrático – além de deixar pela hora da morte os preços da compra de votos.

Ter deputados e senadores só complica as coisas. Alguém aí consegue entender o que é preciso para se aprovar um projeto de lei nesse país? É uma equação com variáveis demais. Eu já desisti de tentar compreender tais mistérios. Prefiro poupar esforços mentais para o enfrentamento com questões mais simples, como o Cálculo Infinitesimal ou a Estética Transcendental de Kant, mas, até onde consigo me situar, parece que a coisa toda funciona mais ou menos assim:

1) Um deputado idealista (sic) elabora o projeto, que é enviado para apreciação dos nobres colegas.

2) Os nobres colegas mandam os líderes de suas bancadas dizerem que só aprovarão o projeto se alguns parágrafos forem alterados, ou se rolar um por fora.

3) No dia da votação, ninguém aparece  no plenário, a não ser o deputado Givanildo Sampaio (PFL-PI), que tinha esquecido o celular embaixo da cadeira.

4) Oito meses depois, às custas de muita barganha (sim, é um eufemismo, leitor), o projeto é aprovado, cheio de remendos.

5) O projeto é enviado para o Senado, onde é recebido com desdém por senadores que afirmam não ter tempo devido às muitas matérias para apreciar, sem contar as MP’s trancando a pauta.

6) Depois de acertado o custo (que pode ser político ou monetário) da votação, os senadores rejeitam o projeto.

(Aqui eu me perdi, leitor. Agora o projeto deve voltar para a Câmara? Quais são exatamente as modificações que os senadores exigem? Ele deve ser aprovado por unanimidade, por maioria simples, por mais da metade, por quatro quintos ou seis oitavos? Bem, não importa. Qualquer que seja o resultado, se o texto da lei continuar do jeito que está o presidente vai vetá-la, mesmo.)

7) Seis meses depois, o projeto, já modificado, está para ser votado pela segunda vez na Câmara. Mas a votação é adiada porque um deputado governista foi visto aos beijos com a filha de um conhecido padeiro de Brasília. É aberta a “CPI do Pão Francês”, para apurar as denúncias de superfaturamento do pão servido no café da manhã do presidente.

O cálculo pode ter duas soluções:

A) Um ano e meio depois, os deputados e senadores estão preocupados demais com suas campanhas de reeleição, e não vão perder tempo com um projeto tão insignificante.

B) O governo assume para si a responsabilidade e investe pesado, dando cinco ministérios aos partidos de “Oposição.”  O projeto sofre grandes alterações, é aprovado nas duas Casas e sancionado. E assim, o que nasceu como a proposta de criação de um Imposto sobre a Fortuna acaba se tornando um programa para abertura de poços artesianos nas fazendas de congressistas nordestinos.

7

de
agosto

HAI KAI PARLAMENTAR

O ruído áspero de um rasgo

Maços e maços pelo chão

Maldita valise paraguaia.

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